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Uma vida dedicada à literatura e ao ensino

imagemA escritora Angela Maria Rossas Mota de Gutiérrez é uma das agraciadas com o 46º Troféu Sereia de Ouro. O médico Anastácio de Queiroz Sousa, o desembargador Teodoro Silva Santos e o cineasta Karim Aïnouz também recebem a comenda, na próxima sexta-feira

Da relação constante com as letras – da infância à fase adulta -, a escritora Angela Gutiérrez dedicou sua vida a transformá-las em frutos. Iniciou lendo de tudo, familiarizando com as ferramentas com as quais construiria, um dia, um legado. Exigente, demorou a publicar as próprias histórias e dedicou a maior parte de seu tempo ao ensino universitário. Na Universidade Federal do Ceará (UFC) implantou curso de pós-graduação, participou da criação do Instituto de Cultura e Arte (ICA) e formou muitos alunos, apresentando-lhes principalmente à literatura brasileira. Hoje, mãe de três filhos e escritora reconhecida, ela contabiliza sete livros e importantes conquistas na universidade.

Nascida na “casa-biblioteca” do avô Tomaz Pompeu, Angela conta que a relação que manteve com os livros nas mais diversas fases de sua vida é resultado do empenho do pai para estimular-lhe a leitura. “Na infância, o papai (Luciano Cavalcante Mota) me deixava um livro pela manhã e de noite vinha perguntar se eu tinha lido e comentar as histórias. Ele foi construindo esse amor em mim pela literatura. Já minha mãe (Angela Laís Pompeu Mota) era uma excelente contadora de histórias. Devo tudo o que sou a eles”, diz.

A paixão pela leitura já existia, quando manifestou, por volta dos dez anos de idade, o sonho de tornar-se escritora. “Quando fui fazer o exame de admissão, me perguntaram o que eu queria ser, e eu disse: escritora de livros maravilhosos. Me tornei escritora, agora de livros maravilhosos fica por conta dos leitores”, ri.

Angela diz que sua trajetória profissional seguiu uma linha muito coerente. “De leitora, me tornei professora e escritora”, emenda. Quando decidiu cursar Letras na UFC, alguns familiares não compreenderam a decisão. “Diziam que eu daria uma excelente advogada, uma juíza. A área de Letras sofria e ainda sofre preconceito em relação à carreira. Acho a minha carreira maravilhosa: me deu muito trabalho, mas também muita alegria. Durante toda a minha vida, eu fui mais professora do que escritora”, avalia.

Angela iniciou a carreira docente muito jovem. Por volta dos 20 anos, começou a lecionar nas Casas de Cultura. Depois, já graduada, ingressou no ensino universitário, sempre em disciplinas relacionadas à literatura brasileira. “Isso me deu uma enorme dimensão da realidade brasileira. Eu lia literatura e complementava com livros de história para entender melhor. A minha literatura é muito relacionada a esta realidade”, comenta.

Universidade
Uma das contribuições da professora à Universidade foi o trabalho de recuperação da Casa José de Alencar, cuja direção ela assumiu em um período “desastroso” – com a estrutura física deteriorada e praticamente nenhuma pesquisa ou projeto em desenvolvimento. “Tenho muito orgulho de ter trabalhado para deixar a Casa digna. Nós fizemos essa reabertura. Fico feliz em ter deixado esses frutos”, afirma.

Apesar do contato frequente com as letras desde a infância, Angela demorou a escrever o primeiro livro. Uma doença reumática, porém, lhe despertou o temor de ter algo mais grave um dia e não deixar nenhuma palavra escrita, depois de uma vida inteira de leitura. ”Comecei a escrever ‘O mundo de Flora’ por isso e deixei guardado, tinha vergonha de mostrar. Um dia, um sobrinho leu e disse que não poderia ficar guardado”.

O estímulo fez criar coragem para datilografar os originais escritos à mão para enviar aos colegas Artur Eduardo Benevides, Sânzio de Azevedo, Horácio Dídimo e Moreira Campos. ”A receptividade foi muito melhor do que eu esperava”, lembra.

Depois do primeiro livro de ficção, Angela publicou pesquisas acadêmicas, poesias, romances, contos. Ao todo, escreveu sete livros, além de colaborar em muitas parcerias com artistas, escritores e pesquisadores. O fato de ser professora a colocou em uma posição especial, distante do isolamento frequente dos autores e em contato direto com o público. “Esse contato é importante, porque você sente que não está criando para o nada, não está criando para guardar, mas para ser lido, para que os personagens continuem vivos”, diz.

Sete anos depois da estreia, Angela Gutiérrez decidiu ouvir um conselho dado muitas vezes pelos colegas e se candidatou a uma cadeira na Academia Cearense de Letras. A decisão veio depois que um amigo, ao ouvir mais uma negativa por se achar “muito verde”, lhe questionou: “Mas você não quer entrar na casa do seu avô?”. Isso porque a sede da Academia é conhecida como Casa de Tomaz Pompeu, o primeiro presidente da agremiação. “Isso me tocou”, ela diz. Hoje, Angela ocupa a cadeira nº 16 e integra a diretoria tanto da Academia quanto do Instituto do Ceará.

A comenda
Angela Gutiérrez conta da alegria de receber o Troféu Sereia de Ouro. “Ser incluída em uma galeria de pessoas tão notáveis é um privilégio. Rachel de Queiroz, Patativa do Assaré e tantos grandes nomes já receberam a comenda. Sei que, ao receber o Troféu, está embutida uma responsabilidade. Fomos escolhidos porque acreditam que representamos o Ceará e que continuaremos lutando em nossas áreas para novas realizações que ponham o Ceará em relevo”, declara.



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